Pedro Bivar dá opinião sobre o CAR


CAR/VERSÃO III – História de um fracasso precoce

O que realmente se previa, aconteceu!

Os convites feitos aos melhores jogadores nacionais para integrarem a inconcebível estrutura que a FPT montou apressadamente, arrogantemente e obviamente com muita pouca reflexão e inteligência no Jamor, que dá pelo nome de Centro de Alto Rendimento (CAR), deu no que se esperava: um fiasco total, com pouquíssimos jogadores a aceitarem o convite. A noiva foi deixada no altar! Isto é, dos 13 previstos na “Lista de Atletas Referenciados do CAR – Janeiro 2014”, que consta do site oficial da FPT, só 3 aceitaram o convite. Dois dum clube de Lisboa que tinha condições para os treinar e que só abandonaram o clube pelas condições financeiras oferecidas pelo CAR, depois de assediados num escandaloso caso de concorrência desleal, vindo ainda para mais da parte de uma Federação (que existe para, entre outras incumbências, apoiar os clubes), e um outro atleta, oriundo do Alentejo, que não tendo condições no seu clube de origem, se deslocava já há alguns anos a Clubes de Lisboa para treinar.

No primeiro caso esses convites acarretaram enormes prejuízos, desportivos e financeiros, ao clube onde treinavam, o Ace Team/Clube de Ténis de Alfragide, já que, com a saída dos seus dois melhores atletas, e a previsibilidade de mais convites e mais saídas, houve uma reacção em cadeia que levou ao abandono do Clube de outros atletas que com eles treinavam, havendo ainda neste momento vários jogadores e pais a questionarem-se sobre a continuidade no clube porque as circunstâncias se alteraram, o grupo ficou mais fraco e havendo mesmo a possibilidade de situação se agravar, podendo a hemorragia não ter ficado por aqui. Os chamados efeitos colaterais.

Estes até podiam ser admissíveis se estivéssemos em presença de um “bem maior”, da criação de algo superior que justificasse, ou que pelo menos fosse aceitável até aos olhos dos clubes, o esbulho dos seus melhores atletas. Estivéssemos nós perante a criação de uma estrutura largamente pensada, debatida, meditados e corrigidos os erros das estruturas que a precederam, com treinadores com larga experiência no treino e produção de atletas de competição, com garantias políticas de que isto não era de novo um entusiasmo fugaz e passageiro então, talvez, digo talvez, se aceitasse um modelo destes, em que um organismo publico se apropria sem qualquer compensação dos melhores valores e activos de outros organismos privados.
E esse organismo publico, é a FPT, que tem como principal fim estatutário, o desenvolvimento do Ténis em Portugal e repita-se que um dos seus objectivos mais importantes deveria ser apoiar os organismos privados referidos, os Clubes, incentivando-os ao máximo na criação de mais e melhores jogadores de alto nível.

Pois não, esta Direcção da FPT conseguiu em meia dúzia de meses destruir toda a confiança entre aqueles de quem deveria ser a máxima defensora e cooperante, criando uma destorcida concorrência, utilizando para o efeito meios totalmente desiguais contra os quais os clubes não conseguem fazer face.

E esses meios são o dinheiro, não obviamente o da FPT, que é praticamente uma empresa insolvente, devedora há anos de milhares de euros às Associações Regionais, mas o dinheiro que o IPDJ despejou nos cofres federativos, ou seja, o nosso dinheiro, através dos nossos impostos, e afalácia, a manipulação da ansiedade que grassa no país tenístico também há vários anos, entre pais, jogadores, treinadores etc…em produzir em Portugal jogadores de alto nível internacional.

No site da FPT sob o título “O que é o CAR Jamor?” vem logo explicado como há-de ser resolvida essa obsessão. E não estão com meias medidas, vão logo directos à jugular:

O Centro da Alto Rendimento, com base no Centro Desportivo do Jamor, é uma estrutura de excelência, destinada a criar as condições necessárias para que os jovens possam vir a integrar, no futuro, o restrito leque de jogadores no Top 100 mundial.

Pouco ambiciosos, hem? Num país que não conta pelos dedos de uma mão jogadores que integram o Top 100 mundial, o CAR, não visa humildemente e paulatinamente melhorar o nível competitivo do país, promover mais e melhor competição, apoiar os melhores jogadores onde quer que eles se encontrem, resolver esse problema aparentemente insolúvel da conciliação entre Estudos/Competição, etc…
Não! Essa modelar estrutura com largos anos de existência, a produzir esses jogadores de Top também há vários anos, com treinadores experimentadíssimos nessa prática, com um suporte financeiro assegurado também por diversos anos, entre outros atributos, não se contenta com pouco. Almejam alto, querem a Glória, sem esperar muito, à primeira tentativa, que isto de um mandato passa rapidamente... E reparem é jovens no plural, e Top 100, e só falta lá estar “breve”, num “…futuro breve”. Não sejamos tímidos. Os tempos estão para sermos audazes.
E afinal tudo isto para quê? Para termos o extraordinário e inconcebível CAR a funcionar com 3 atletas. A montanha pariu um rato!

E mais extraordinário ainda, tendo para estes 3 atletas um corpo técnico de 4 treinadores!!

Aleluia!! ACABOU A CRISE! VOLTÁMOS A SER RICOS! Que luxo. Mais vale desde já avisar a Troika que somos ricos, que não precisamos nem de ajuda nem de resgates e que tudo isto por que passámos não passou de um pesadelo. Qual Alemanha, qual Espanha, França ou EUA. O CAR em Portugal é que é! 3 atletas para 4 treinadores! E diziam que os tempos da riqueza e do desperdício já lá iam, que tínhamos todos de empobrecer, que vivemos acima das nossas posses, mas que agora tudo estava a ser corrigido. Acorda Passos Coelho, andas a ser enganado.

Mas ainda há melhor. Construíram este brilhante sistema de produção de jogadores Top 100, deixando alguns dos melhores atletas do país sem qualquer tipo de apoio. A lista de atletas a integrar o CAR, elaborada por mentes esclarecidas, depois de longo e ponderado escrutínio, que não tenham podido ou querido integrá-lo, ficam completamente de fora do apoio federativo. É um contrato de adesão, ou aceitas desta forma ou não levas nada! E já agora contrato esse que deve ter a assinatura do atleta, ou do seu representante legal, por baixo, como vem previsto de novo no site da FPT, no dossier Competição, “CAR-Jamor” e sob o título “Como Funciona”, onde se estipula: “Cada atleta assinará um contrato, que terminará no final de cada ano, independentemente da data do seu início. Neste contrato constarão todos os direitos, deveres, devolução de uma parte da % ganha em torneios e objetivos a cumprir. Pais e atletas assumirão compromisso perante códigos de conduta do CAR.

Apenas um pequeno problema: até à data não existe qualquer contrato. Não foi elaborado. Nada foi assinado. Os atletas já aderiram ao CAR, já aí treinam diariamente, sabem que têm direitos e deveres, sabem que vão ter de assinar um contrato, de acordo com o qual terão de devolver uma parte da % ganha em torneios e objectivos a cumprir, com apenas um ligeiro e insignificante detalhe que é o de não saberem nem quanto nem quais!
Isto é o que se chama assinar um cheque em branco. Obrigarem os jogadores e famílias a assinarem de cruz. E isso só pode ser feito por má-fé, incúria ou estupidez. Provavelmente foram as três coisas juntas.

No futuro próximo, a não ser que a coisa falhe muito e ainda seja mais catastrófica do que já é, atletas por exemplo como o Frederico Silva, Duarte Vale ou Tiago Cação, só para citar alguns dos melhores atletas nacionais dos seus escalões actualmente, terão zero apoio deste CAR, desta Federação.
Minto! No site da FPT em “Outras Vertentes do CAR”, vemos afinal que: “O CAR estará aberto a que outros atletas possam vir, juntamente com os seus treinadores, efetuar sessões de treino, sempre e quando seja uma mais-valia para ambas as partes e mediante disponibilidade a consultar…” e “No âmbito do calendário competitivo do CAR, pretende-se convidar atletas referenciados a integrar o grupo de trabalho aos torneios em questão, para que possam usufruir do apoio da estrutura do CAR (deslocação e acompanhamento técnico) Como as vagas serão limitadas, os atletas convidados deverão fazer as suas candidaturas aos torneios em questão, sendo que a sua aceitação respeitará as limitações da estrutura (numero de vagas existentes na carrinha e rácio de qualidade de 1 treinador para 5 atletas).”

Podem portanto os atletas que não aceitaram integrar o CAR, apesar de serem dos melhores que temos (e são tão pouquinhos…) treinar nesta estrutura acompanhados dos seus treinadores, mas atenção “sempre e quando seja uma mais-valia para ambas as partes”, que isto de dar esmola aos pobres é tempo que já acabou! E podem por outro lado adquirir a irrecusável vantagem de irem à boleia na carrinha da FPT, depois de verificadas as vagas, e usufruírem de acompanhamento técnico nos torneios para onde os efectivos do CAR se desloquem.
Há-de convir-se que estas generosas ofertas são bastante importantes, porque como se sabe é mesmo deste tipo de apoios que os atletas atrás referidos estão mais carenciados: treinos, boleias e acompanhamento técnico.
A pergunta que se impõe é esta: e quanto é que esta brincadeira, para não lhe chamar outra coisa como desfaçatez, incúria, ignorância etc… nos custa?

Quanto custa ao erário publico brincar desta maneira à Alta Competição?

Quanto custa ao Ténis Nacional, arriscarem-se a destruir o tecido competitivo baseado nos clubes, provavelmente a troco de nada, isto é, sem construírem nada de valor em substituição?
Quanto custa aos Clubes e Treinadores, desportiva e financeiramente, serem assim enganados, verem-se privados dos seus melhores valores, sem qualquer compensação, sabendo que quando se interfere na estrutura competitiva dum Clube, mais tarde ou mais cedo surgem consequências gravosas, previsíveis ou imprevisíveis (para os mais atentos, mais do que previsíveis), no seu funcionamento e consequentemente nos seus resultados. Como vão a partir de agora os Clubes e Treinadores arranjar motivação para trabalhar dura e arduamente com os atletas todos os dias, sabendo que podem estar a trabalhar a prazo e que quanto melhor trabalharem, isto é, quanto melhor for o seu atleta maior o risco de o perderem?

Quanto custa em termos de credibilidade de uma Federação, de um sistema de produção de jogadores de alto nível, o facto de se estar, consciente ou inconscientemente, a induzir em erro, jogadores e famílias, criando-lhes falsas expectativas e levando-os a pensar que este modelo é propício a produzir os fins anunciados? Repare-se que quase exclusivamente só aderiram ao CAR jogadores de Lisboa. (É mesmo aqui ao lado. Se falhar também não dá muito transtorno…) Os do resto do país ficaram “escaldados” com o último CAR. E o que acontece quando um dia, se calhar nunca, mas tenhamos fé, vier mesmo a ser criada uma estrutura bem montada e com todos os requisitos para ter sucesso? E se após tantos insucessos e tanta desfaçatez nas experiências anteriores não se apresentar nenhum jogador candidato?

Quanto custa à nossa modalidade uma estrutura que devendo apoiar os melhores atletas, delapida milhares de euros por ano, e os deixa de fora?
Quanto custa mais uma vez defraudar o país, pensando que é desta que vamos produzir jogadores a sério, jogadores Top 100 Mundial?
Alguém sabe quantificar a factura?

Tudo isto é uma vergonha, tudo isto era evitável, tudo isto podia ter sido bem feito. Mas para isso era necessário que a actual Direcção da FPT tivesse outros conhecimentos, outra humildade (ou alguma), que ouvisse outras opiniões, enfim que tivesse mais inteligência.
Mas isso se calhar era pedir demasiado.

Parafraseando Pacheco Pereira: “QUEM NASCEU PARA LAGARTIXA NUNCA CHEGA A JACARÉ!” - PROVÉRBIO POPULAR
Pedro Bivar
(Director-Técnico do Ace Team/Clube de Ténis de Alfragide)

Ps: nós, os que participámos na reunião na sede da FPT em Dezembro passado, ainda estamos à espera que o Presidente da Direcção da FPT cumpra a promessa aí feita, de nos informar, sobre o previsto nas Linhas Orientadoras do CAR, em “Direitos do Clube do atleta”, que estabelece: ”Serão estudadas outras formas de apoio complementares aos clubes”, bem como o também previsto nesse documento, qual o “Apoio financeiro individual às melhores atletas femininas dentro dos mesmos escalões etários, para que possam cumprir o seu programa competitivo”.
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